IPHAN reúne Mestres Sabedores da Cultura Popular em Búzios e resgata historia viva do povo

Gerente de Patrimônio Histórico, Antônio Câmara

 O IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em parceria com as secretarias de Comunicação e Cultura, Turismo e Ambiente e Pesca do município, realizou nesta terça feira (22), no Cine Bardot, a parte buziana do projeto Encontro com os Mestres Sabedores da Cultura Popular, que visa resgatar e preservar a memória imaterial do povo da Região dos Lagos. A proposta faz parte da II Semana Fluminense do Patrimônio 2012 do instituto.

O resgate cultural vem sendo feito através de reuniões, nas quais são gravados depoimentos de pessoas-chave moradoras em Cabo Frio, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia e Búzios, que detêm o conhecimento cultural que traduz a própria alma do povo. Entre outros participaram da etapa em Búzios, mestres como Gamaliel Teixeira de Melo, de Arraial do Cabo, falando sobre Redes e Artesanato; Moacir Correia de Carvalho narrando sobre Pesca artesanal; dona Eliezer Araújo, presidente da Associação de Pescadores da Gamboa e das Trabalhadoras da Pesca de Cabo Frio; Maria da Glória Pereira Miguel, professora de renda de bilros, da Casa de Cultura de Arraial do Cabo; Landina Maria Antonia de Oliveira, representante de Maria Joaquina dos quilombolas e da Casa da Farinha; Silvia Santos da Silva e Manoel Azevedo, representantes da maricultura na Rasa; Democina Gonçalves, rezadeira de São Pedro da Aldeia; e Antonio Câmara, descendente de portugueses e historiador, conselheiro de cultura do município.

 Histórias contadas em Búzios

Em resumo, o IPHAN colheu, por exemplo, da dona Landira, a história do desenvolvimento do bairro Maria Joaquina, de como este foi dividido com a emancipação de Búzios; sobre a sua criação na roça, trabalhando na enxada e raspando mandioca para a casa de farinha. Ela lembrou de como os próprios moradores se uniram ali, pagando cinco reais por mês, para a antiga CERJ colocar energia no local e como viu chegar a telefonia e a rede de água da Prolagos no bairro. Tataraneta de escravos, ela disse se sentir realizada por fazer o curso de maricultura e por ter a constante ajuda da secretária de Meio Ambiente e Pesca,  de Búzios, Adriana Saad, no apoio a Associação dos Quilombolas de Maria Joaquina.

Já Manoel Azevedo e Silvia Santos da Silva contaram detalhes de como ocorreu a escassez de pescado na região, gerando a necessidade da busca de alternativas como a produção de maricultura e ostras, desenvolvida com o apoio da Secretaria de Meio Ambiente e Pesca de Búzios, Fiperj e outras entidades.  Segundo eles, as treze famílias que fazem parte do projeto de Aquicultura na Rasa, que receberam 20 mil sementes de vieira da prefeitura e de ostras vindas de Santa Catarina, já provaram que a iniciativa deu certo.

– Com o conhecimento que estamos recebendo da secretaria de Meio Ambiente e Pesca e Fiperj temos trabalhado duro. E tudo que queremos é ficar lá, viver do nosso esforço e passarmos o que aprendemos para nossos filhos – disse Manoel Azevedo em seu depoimento.

Antonio Câmara, o Toninho Português, fez um resumo da maior importância sobre a história de nosso litoral e do caráter cultural pesqueiro do povo. De origem portuguesa-africana, ele nasceu em  Búzios e lembrou que seu pai, dono de barco de pesca, introduziu a balança filizola em Búzios para pesar o pescado (uma novidade na época), viajando 16 horas até o Rio para repassar o peixe comprado aqui. Falou da dificuldade que vê na conscientização do pescador artesanal em respeitar as leis para garantir a reprodução de espécies, e da grande esperança que tem em projetos como o da maricultura.

– Estamos vivendo uma nova fase na região com a maricultura. E vai dar certo sim, porque ao contrário dos pescadores artesanais que tiram o peixe fora de época, os maricultores terão que esperar a produção se desenvolver para comercializá-la. Assim como um agricultor tem que esperar o milho e o coco estarem prontos para fazer um bolo, eles vão esperar a hora certa da colheita – analisou.

Já dona Eliezer Araújo, falou sobre a luta dela a frente da Associação de Pesca da Gamboa e das Trabalhadoras de Pesca de Cabo Frio, para organizar a classe. Isto resultou na compra de equipamentos caros (para ajudar no transporte do pescado e manutenção de embarcações com avarias), e na realização de Festivais de Culinária da Pesca que tem promovido a cidade e trazido benefícios para as famílias de pescadores. Ela convidou os técnicos do Iphan a participar dias 24 e 25 de agosto da 5ª. edição do festival, que terá pratos específicos da culinária regional como tainha com guandu, “peixoda” de feijão branco com frutos do mar,e pastel de mexilhão.

 De dona Maria da Glória, eles ouviram como ela aprendeu com a mãe aos oito anos a arte da renda de bilros, e depois se uniu a rendeiras antigas de Arraial do Cabo, como dona Otólia, desenvolvendo a arte até virar mestre. Hoje ela tem 15 alunos no sendo uma delas a filha de Otólia, e sonha em expandir mais a arte, que mantém viva em exposição permanente no Centro de Cultura Manoel Camargo.

Os depoimentos foram gravados por Paulo Sergio Barreto e Mario Márcio, representantes do IPHAN. Segundo Paulo Sergio, que é sociólogo e também pesquisador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, os moradores são os protagonistas de sua própria história. A ideia é, no futuro, lançar um livro com o resumo dos relatos colhidos nas quatro cidades. Mario Marcio considera as pessoas-chave que participam como verdadeiras “bibliotecas ambulantes”, cujo legado deve ser transferido aos filhos e netos.

De acordo com Michelangelo Mejias-Cortez, coordenador de cultura do município, é considerado patrimônio imaterial tudo aquilo que é transmitido de geração em geração, e que contribui para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. Porém, muitas vezes isso é esquecido, chegando a se perder com o tempo, daí a importância de reunir pessoas do povo para conversar sobre o assunto.

– A memória de um povo é a base para sabermos quem somos e onde queremos chegar. Esse projeto pretende justamente manter viva a nossa história – concluiu.

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